21 de outubro de 2010

Mistura Homogênea

Parece que ultimamente a criatividade fugiu da minha cabeça e não encontra o caminho de volta nem com GPS. O texto que segue abaixo foi escrito por Bruno Chazan, jornalista esportivo, corinthiano mais que roxo (sim, mais corinthiano que eu), que quando se pede com carinho escreve ótimos contos. Espero que este seja só o primeiro de muitos dele que publico aqui. Enjoy ;)



"De uma gelada madrugada de outubro para uma senegalesca tarde de janeiro. Céu aberto, nuvens hibernando e sol de mangas arregaçadas. Assim como a água é o condutor universal de eletricidade, o sonho é o meio de passagem para os desejos mais escondidos do inconsciente. Continuo deitado, mas não mais com o edredom enrolado como um cachecol. Corpo exposto aos raios ultra-violetas e à sensação de férias que impregnam o ambiente. Onde estou? Não reconheço, e nem tento. Só a visão dessa água tão azul como safira já desestimula qualquer tentativa de raciocínio. Que meus neurônios descansem, sou apenas impulsos. 
 
Percebo que não estou sozinho. A alguns metros, uma escultura deitada à beira da piscina se oferece ao calor como Monalisa aos turistas do Louvre. Sua posição não me permite reparar em seu rosto, mas o que me está à vista já vale um Picasso: um corpo esbelto e moreno, protegido em suas formas mais delicadas por um minúsculo biquini branco. Ela não se move, o que me faz quase acreditar que estou assistindo ao comercial de alguma marca de chinelos. Ops, ajeitou o cabelo, preto, levemente ondulado. A água escoa de suas mãos e percorre a cabeça de cima a baixo, molhando também os seios fartos. Olho para os lados e compreendo que sou a única testemunha daquele ensaio surreal. As outras pessoas simplesmente ignoram a cena.

Meu desejo é de me aproximar, mas a hesitação trava o meu corpo. Quem é ela? Me conhece? O que faz aqui? Pois é, os neurônios são mesmo hard-workers. Ainda bem que uma voz sopra aos meus ouvidos para fugir das perguntas e me atentar aos sinais. Levanto-me e chego devagar ao seu lado. Ela acompanha meu movimento com a cabeça e não mostra o mínimo incômodo. Pelo contrário, seu sorriso branco e encantador é um cartão de boas vindas e um prêmio à minha ousadia. Antes que minha boca formule alguma frase sem sentido, sou surpreendido pelo vaivém daquelas mãos molhadas e delicadas no meu peito. A água fria traz à pele quente um choque insignificante diante do arrepio que exalta meus pêlos. Sempre me perguntei o porquê das coisas, mas ali não cabia. Um ruído e o momento mais mágico da minha vida acabaria num retorno ao edredom. 
 
Sigo em frente. Retribuo as boas vindas com leves carícias em seu rosto. Seus olhos estão pequenos, acho que é a luminosidade. A pele é macia como algodão, acho que é a natureza. Ela me encara com meiguice e fome ao mesmo tempo. Num gesto brusco, domina minha boca e me tira a respiração. Um encontro perfeito, simétrico. Encaixe irreal, nada fora de lugar. Se lábios competissem, os nossos seriam favoritos ao ouro na ginástica rítmica. Mas como estamos sob 40 graus e à beira da piscina, mudamos para o nado sincronizado. Caímos juntos n'água, sem levantar uma gota - seria agora saltos ornamentais?
 
Água + hormônios = mistura homogênea. Por um segundo me desconcentro, afligido pelo receio de sermos atração de banhistas excitados. Não, somos como espíritos, invisíveis e inaudíveis. Volto ao transe com a vontade de nele perpetuar. Beijos e abraços formam uma onda de amor, contínua e eletrizante. Entrego-me ao instinto humano. Dali nasci, dali viverei. Passam-se minutos, passam-se horas. Nosso amor é como a inércia, não há atrito que nos interrompa. Mas, de repente, minha perna se mexe com mais facilidade do que aconteceria sob a água. Um som de cortador de grama contradiz tudo o que desfrutei. Um olho se abre, e minha morena se despede de longe, com um tchau sorridente combinado com os mesmos olhos pequenos. Frustrado, repito a mim mesmo que não preciso mais do edredom."

Bruno Chazan, vulgo Nê.

6 de outubro de 2010

Que "vibe" louca

- Eu não estou mais na mesma vibe.

- Vibe? – será que eu estava entendendo o que estava entendendo?

- Nosso namoro não esta legal, e eu não estou mais na mesma vibe. – é, eu realmente estava entendendo o que estava entendendo, mas não queria entender.

- Você esta terminando comigo? É isso?

- É, é isso... não quero mais, não te amo mais, e se continuarmos só vou te machucar.
Silencio.

- Bia, não chora. Não Bia, por favor não chora. Não quero te fazer sofrer.

O painel avisa a próxima senha: G3981. Que numero mais ridículo de atendimento pra tirar a segunda via do RG. Levantei e fui até a atendente.

Sim, foi assim que meu primeiro namorado terminou comigo, na fila do Poupatempo enquanto eu tirava a segunda via do RG (na verdade, se existe quinta via de documento, era este que eu estava tiranndo, porque já tinha perdido o RG umas quatro vezes).

Voltei. Me sentei ao seu lado.

- Transa comigo? – meu Deus, eu disse isso? É, eu disse isso, e nem sei o pq me surpreendi.

- Oi?!

- É.

-É o que?

- Vamos fazer o que fizemos de melhor nesse um ano.

- Mas eu estou terminando com você.

- Mas eu quero transar com você uma ultima vez. Não sei quando vou fazer isso de novo.

Ai meu Deus, se ele se negar foder comigo uma ultima vez eu juro que me mato, que dizer, ele já tinha fodido tudo mesmo. O desgraçado termina comigo na fila do Poupatempo porque não esta mais na mesma “vibe” e ainda se nega a transar comigo.

- Eu não tenho dinheiro pro motel. Ahhh, alias... também não tenho o dinheiro pro estacionamento. Você tem uns 10,00 pra me emprestar? – ele sabia que eu tinha e ainda faz cara de coitado... Hellooooo, a coitada ali era eu (ou não).

- Eu tenho, e você sabe que eu tenho. Eu pago, e você sabe que eu pago.

Claro, primeiro ele queimou um baseadinho básico. Ultimamente era assim, parecia que pra estar comigo precisava estar maconhado. Caralho, será que eu era tão ruim assim?

O motel de sempre, o quarto de sempre, as cores de sempre.

Que horror.

- Amor, que dia é hoje?

- Não sou mais seu amor. Acho que hoje é dia 25 de agosto, pq?

- Hoje faríamos um ano de namoro. Mas estamos há algumas horas terminados.

- Caralho mano, um ano??? Tudo isso??? A gente namorou um ano? Achei que fosse menos tempo.
Quer saber? Vai pra puta que te pariu. Filho de uma meretriz.

Me deixa em casa. Por favor, me deixa em casa. Eu não quero mais te ver. Eu não quero nunca mais te ver. Eu quero que você se foda nessa sua republica de merda, com aquelas bixetes drogadinnhas de merda, e naquela cidade de merda. E quando você voltar, você vai ver. Eu vou estar linda e mais magra que nunca. Você vai me querer de volta e eu nunca mais vou olhar na sua cara. Vou te tratar com tanto desprezo que você vai se arrepender tanto... Ah meu amor, como você vai se arrepender disso.

Passam-se trinta segundos.

Não, não, não, por favor não. Não me deixa, não me esquece, não deixe de me amar, nunca mais vou conseguir ficar com ninguém, nunca mais vou amar ninguém, nunca mais vou fazer sexo, por que eu só faço essas coisas quando amo, quando estou envolvida, quando estou apaixonada e eu nunca mais vou gostar de ninguém a não ser você. Mesmo com seus defeitos.

Claro que tudo isso foram pensamentos enquanto ele dirigia até a minha casa.

O carro para na porta da minha casa.

- Aí cabeção, você foi muito importante na minha vida. Você é fera. Quando eu voltar pra essa cidade eu colo aqui na sua goma pra gente trocar uma idéia. Beleza?

- Beleza?- Oi??? Ele estava zoando com a minha face linda e inchada de tanto chorar né?

- Beleza! Agora desce do carro porque eu preciso ir embora, já esta tarde. – Não, ele não estava zoando nem com a minha face nem com a face do bozó e nem com a face de ninguém.

Ahhhh meu Deus, minha vida já era.

Para perna. Para de tremer. Para mão, para de suar frio. Para coração, para de fingir que vai sair pelo peito. Para peito, para de doer. Para olho, para de chorar. Para cabeça, para de pensar.
Chora. Dorme. Acorda. Chora. Vai trabalhar. Fui trabalhar? To anestesiada. Fome? Não, não quero comer.

E foi assim durante duas semanas. Duas longas semanas. Até eu conhecer alguém que já conhecia, até me envolver novamente. Até pensar rindo “Ihhhh, aquele cara terminou comigo pq não estava na mesma vibe. Pode uma coisa dessa? Ele é engraçado. Acho que vou marcar uma cerveja qualquer dia desses!”

Ué, mas eu não ia sofrer o resto da minha vida porque ele não estava na mesma vibe?

É, nem doeu tanto assim. O famoso “depois que passa a gente ri!”

Que vibe louca.