Quarta-feira, 28 de Julho. Estação Vila Olímpia, O trem não estava cheio, mas também não havia acentos vagos. Novidade? Não, lógico que não. Ainda mais para um fim de tarde friorento e cansativo.
É engraçado observar as expressões das pessoas. Alguns lêem, outros sorriem sozinhos, dormem de boca aberta, conversam alto, insistem em ouvir pancadão sem fone de ouvido, e outros insistem em encoxar as mocinhas bonitinhas e dar desculpa que foi o tranco do trem.
Um garoto muito bem arrumado, uns vinte e tantos anos de terno e gravata, mochila nas costas e um livro com capa e tamanho semelhante ao Grande Dicionário Aurélio da década de 80, que levava o título de “Bola de Neve”. Com a mão direita segurava a barra do trem e na outra o grande livro. Seu celular toca. E agora o que fazer? Largar o livro ou a mão na qual se segurava para pegar o celular que berrava dentro da sua mochila?
Eis que vê sua salvação momentânea, uma garota de cabelos longos preto, maquiagem forte, unhas roídas pintadas de vermelho sangue, blusa azul com uma grande estampa “TIM. Viver Sem Fronteiras” e uma calça jeans surrada.
- Oi, você pode segurar pra mim, por favor?!
- Claro! – responde a garota soltando uma das mãos da barra, ajeitando a bolsa no ombro e pegando o livro das mãos do rapaz. Ele se alonga na conversa no celular e ela dá uma olhada na orelha do livro. Do alto falante do trem uma voz feminina indica a estação. Cidade Jardim.
- Muito obrigado – diz o rapaz desligando o celular, enfiando-o no bolso e resgatando seu livro.
- Você vai ler isso tudo? – pergunta a moça espantada.
Com um sorriso e meio sem graça ele responde:
- Vou sim. Os homens mais ricos do mundo leram este livro.
- E sobre o que o livro fala? – ainda curiosa, ela o questiona.
- Sobre um dos homens mais ricos e influentes do mundo, do nada ele conseguiu fazer uma fortuna. – Foi a melhor explicação que ele conseguiu dar, até porque, se ele dissesse que o livro é sobre um cara chamado Warren Buffet, ela não saberia quem é esse tal cara.
- Hum… que legal, parece ser interessante. – Ela diz sem muita convicção.
- É, é sim.
“Os acentos de cor cinza são de uso preferencial. Por favor, respeite este direito. Próxima estação: Hebraica-Rebouças”. A voz robótica informa novamente.
- É engraçado como não respeitam as pessoas com preferências né?
- Oi?! – Pergunta a menina meio desligada.
- Hum… nada não. – e ele fica pensando se ela realmente não havia escutado a pergunta ou tinha achado patético o suficiente para ignorar.
- Você pega este trem todos os dias? – ela pergunta no impulso.
- Pego sim. Trabalho num banco de investimentos na Berrini e estudo Engenharia na UniABC, em Santo André. Este é o meio mais rápido. Engenharia… ham.. coisa de louco e tarado por números e contas mirabolantes. E você? – Ele faz cara de quem se arrependeu do tamanho da resposta que deu, e acha melhor ter respondido só “sim” ou “não”.
-Ah não, não faço engenharia não.
Ele ri alto e retruca
- Não! é… não me expressei direito. Eu quis perguntar se você pega sempre o trem.
Ela sorri sem jeito.
- Não, eu estava na Berrini por causa de uma confraternização da empresa. Trabalho na TIM.
- É, eu percebi.
- Pois é, com essa blusa berrante é difícil não perceber mesmo. Mas é porque estava tendo um evento, com comes e bebes. Infelizmente não pude ficar até o final, tenho prova do colégio, e nem estudei.
- Prova da onde? – ele pergunta como se não tivesse ouvido direito.
- DO COLÉGIO – ela responde mais alto e com timidez. Não por ter respondido mais alto, mas do que havia respondido.
- Colégio? Legal… – lógico que não era legal – é, desculpa a pergunta, mas quantos anos você tem?
- 16.
Próxima estação: Pinheiros. A pratica de venda dentro das estações de trem é crime. Não compre! Não dê esmolas! Ajude uma entidade de sua confiança.
“Puta merda!!! Pedofília!” Era isso que o garoto engravatado pensava. De repente o livro começou a pesar mais que dez enciclopédias, sua mochila parecia conter tijolos de construção, e o trem parecia voar pelos trilhos. “Espera! Isso não quer dizer nada”.
- Nossa, você parece ser mais velha. Te dava uns 19 anos. – Ele diz meio sem graça
- É, normalmente as pessoas acham que tenho mais idade. – ela responde com a maior naturalidade, como se já estivesse acostumada com este fato. – Então, como estava dizendo, moro e trabalho em Carapicuíba, só estava nesta região por causa do evento. – Ela retoma o assunto com a maior naturalidade.
- Que bom que você pegou o trem. É a forma mais rápida realmente de chegar. E pudemos nos conhecer, olha que legal. Qual seu nome?
Momento xaveco iniciando, depois de três estações e 10 minutos.
- Thaísa. – Ela responde rápido e não devolve a pergunta.
- Bonito nome.
O trem começa a andar em velocidade menor. Os carros passam lentamente pela marginal pinheiros, e o som da buzina é incessante.
O rapaz sem se identificar continua a conversa ignorando o barulho da via.
- Eu bem que queria comprar um carro, mas as vezes acho que não vale a pena. Sem contar esse transito louco de São Paulo.
- É verdade, mais os gastos para manter né? É seguro, gasolina, estacionamento, licenciamento, IPVA e o que mais imaginar. – Ela completa o pensamento dele, se achando muito inteligente pela observação feita.
- Com certeza.
- Mas você vai ler este livro e vai ser milionário, esqueceu? E influente também. Vai conseguir comprar o seu carro antes do que imagina. – ela diz com desdém.
Ele da uma risada discreta.
Próxima estação: Cidade universitária. Acesso para à linha verde pela Ponte Orca. Ao desembarcar, cuidado com o vão entre o trem e plataforma.
Após o anuncio da localização, ele olha pra ela e diz.
- Eu desço na próxima.
-Ah, tudo bem. Foi um prazer te conhecer. – ela diz dando espaço para que ele passe.
- Olha só, quando eu tiver meu carro posso te dar uma carona. O que acha?
- Eu aceito – ela diz rindo e esperançosa.
O trem para na plataforma.
- Ou melhor, como vou ser milionário, posso te dar um carro também.
A porta se abre.
- E você daria um carro para alguém que você mal conhece? – ela questiona querendo que ele responda o mais rápido possível antes que o empurrem dali.
Começa a confusão. As pessoas começam a desembarcar e embarcar do trem ao mesmo tempo.
- Pra você? Claro. – Ele responde já saindo.
- Por que??? – ela retruca afoita.
Já fora do trem, de pé na plataforma ele responde sério.
- Porque eu vou casar com você.
A porta do trem se fecha, e ela, ainda segurando na barra de segurança, da um sorriso que lhe cobre o rosto.
Próxima estação: Jaguaré. Não segure as portas após o sinal. Evite atrasos e acidentes.
E ele sobe as escadas no sentido oposto.
Nossa, Gabi, você é observadora! rs
ResponderExcluirPara tudo que o cara falou isso, sério?
bjs
Vc viu isso acontecendo?
ResponderExcluirÓtimo texto... não dá vontade de parar de ler, e quando acaba quero saber a continuação!
Muito Bom o texto, Parabéns!
ResponderExcluirSimplesmente sensacional! Assim como todos os seus textos que já li!
ResponderExcluirInvista Gabi, você está no caminho certo!
Nossa Gabi muuito bom o texto....
ResponderExcluirAdorei...Parabéns continue assim.
Você é maravilhosa em tudo que faz. Te amooooo eternamente.
ResponderExcluirEsse foi um bom texto. Vc leva jeito pra cronista. Parabéns!
ResponderExcluirOlá Moises.
ResponderExcluirObrigada pelos elogios. Espero que goste dos próximos!
Beijos,
Gabriela.